Rescisão com banco de horas positivo: como calcular o saldo de horas
Ao sair de um emprego, muitos trabalhadores descobrem que têm um saldo positivo no banco de horas — horas extras realizadas que nunca foram compensadas com folgas nem pagas no holerite.
Esse saldo não desaparece com a demissão: ele precisa ser pago na rescisão, com o adicional de horas extras.
Neste artigo, você vai entender como funciona o banco de horas, como calcular o valor do saldo positivo e o que fazer se a empresa se recusar a pagar.

O que é o banco de horas?
O banco de horas é um sistema de compensação de jornada em que as horas extras realizadas pelo trabalhador são registradas e compensadas posteriormente com folgas — em vez de serem pagas diretamente no holerite.
Para ser válido, o banco de horas precisa estar previsto em convenção ou acordo coletivo de trabalho. Sem essa previsão formal, as horas extras devem ser pagas no mês seguinte ao da realização, com o adicional de pelo menos 50%.
Mesmo quando o banco de horas é válido, a compensação precisa ocorrer dentro do prazo previsto — em regra, até o final do período de vigência do acordo coletivo. Se as horas não forem compensadas dentro do prazo, transformam-se automaticamente em horas extras a serem pagas.
O que acontece com o saldo positivo na rescisão?
Quando o contrato de trabalho é encerrado e o trabalhador ainda tem saldo positivo no banco de horas — horas que foram registradas mas não foram compensadas com folgas —, esse saldo deve ser pago integralmente na rescisão, com o adicional de horas extras correspondente.
Isso vale para qualquer modalidade de demissão: sem justa causa, por justa causa, por pedido de demissão ou por acordo. O saldo positivo no banco de horas é uma dívida da empresa com o trabalhador e não pode ser cancelado pelo encerramento do contrato.
Como calcular o valor do saldo de horas
O cálculo é feito em três passos:
Passo 1 — Calcular o valor da hora normal
Divida o salário mensal pelo número de horas mensais da jornada. Para jornada de 44 horas semanais, o divisor correto é 220.
Exemplo: salário de R$ 2.000,00 ÷ 220 = R$ 9,09 por hora normal
Passo 2 — Identificar o tipo de cada hora do saldo
Nem todas as horas do banco têm o mesmo adicional. É preciso classificar cada hora conforme o período em que foi realizada:
- Horas extras em dias úteis: adicional de 50%
- Horas extras noturnas (entre 22h e 5h): adicional de 50% + 20% (hora extra + adicional noturno)
- Horas extras em domingos e feriados: adicional de 100%
Passo 3 — Calcular o valor total do saldo
Multiplique o número de horas de cada tipo pelo valor da hora com o adicional correspondente.
Exemplo prático completo:
Trabalhador com salário de R$ 2.000,00 e jornada de 44 horas semanais, com saldo de 80 horas extras diurnas e 20 horas extras noturnas no banco de horas:
Valor da hora normal: R$ 2.000,00 ÷ 220 = R$ 9,09
Horas extras diurnas (adicional de 50%): R$ 9,09 × 1,5 = R$ 13,64 × 80 horas = R$ 1.091,20
Horas extras noturnas (adicional de 50% + 20%): R$ 9,09 × 1,7 = R$ 15,45 × 20 horas = R$ 309,00
Total do saldo de horas a receber: R$ 1.400,20
O saldo de horas tem reflexo nas outras verbas rescisórias?
Sim — quando as horas extras foram habituais durante o contrato, não apenas eventuais.
Se o trabalhador realizou horas extras de forma regular ao longo do contrato e essas horas alimentaram o banco continuamente, elas são consideradas horas extras habituais. Nesse caso, a média mensal dessas horas deve ser incluída na base de cálculo de férias com terço constitucional, 13º salário, FGTS e aviso prévio.
Isso significa que a rescisão não deve ser calculada apenas sobre o salário base — mas sobre a remuneração média total, incluindo a média das horas extras habituais. A empresa que ignora esse reflexo está pagando a menos do que deve.
Como provar o saldo de horas?
A principal prova é o próprio controle de jornada da empresa — cartão ponto, ponto eletrônico ou qualquer sistema de registro de horário. Esses documentos comprovam as horas trabalhadas e as horas registradas no banco.
Se a empresa se recusar a fornecer o espelho de ponto, o trabalhador pode solicitar a apresentação desses documentos durante o processo judicial — e a recusa da empresa em apresentá-los pode ser interpretada como reconhecimento da jornada alegada pelo trabalhador.
Outras provas aceitas na Justiça do Trabalho são mensagens de WhatsApp com ordens fora do horário, e-mails, registros de acesso ao local de trabalho e testemunhas.
O que fazer se a empresa se recusar a pagar o saldo?
O trabalhador pode entrar com reclamação trabalhista na Justiça do Trabalho pedindo o pagamento do saldo de horas positivo e todos os reflexos nas verbas rescisórias.
O prazo é de dois anos a partir da data da demissão. Dentro da ação, é possível cobrar os direitos dos últimos cinco anos de contrato.
Para entender mais sobre como calcular a rescisão com horas extras habituais, leia: Rescisão com horas extras: como calcular e quais são os reflexos
Para entender mais sobre horas extras por mensagens fora do horário, leia: Horas extras pelo WhatsApp: quando você tem direito e como provar
Perguntas frequentes sobre rescisão com banco de horas positivo
O saldo positivo no banco de horas é pago na rescisão?
Sim. Quando o contrato é encerrado e ainda há saldo positivo no banco de horas, a empresa é obrigada a pagar todas as horas registradas e não compensadas, com o adicional de horas extras correspondente. Isso vale para qualquer modalidade de demissão — inclusive pedido de demissão e demissão por justa causa.
Qual é o adicional sobre as horas do banco de horas pagas na rescisão?
Depende do período em que as horas foram realizadas. Horas extras em dias úteis têm adicional mínimo de 50%. Horas noturnas têm adicional de 50% mais 20% de adicional noturno. Horas em domingos e feriados têm adicional de 100%.
Como calcular o valor da hora para o banco de horas?
Divida o salário mensal por 220 — que é o número de horas mensais para a jornada padrão de 44 horas semanais. O resultado é o valor da hora normal. Aplique o adicional correspondente ao tipo de hora para obter o valor da hora extra.
O banco de horas é sempre válido?
Não. Para ser válido, o banco de horas precisa estar previsto em convenção ou acordo coletivo de trabalho. Sem essa previsão formal, as horas extras devem ser pagas diretamente no holerite do mês seguinte, com o adicional mínimo de 50%.
O saldo de horas tem reflexo nas férias e no 13º salário?
Sim, quando as horas extras foram habituais. Se o trabalhador realizou horas extras de forma regular ao longo do contrato, a média mensal dessas horas deve ser incluída na base de cálculo de férias, 13º salário, FGTS e aviso prévio. A empresa que calcula essas verbas apenas sobre o salário base está pagando a menos.
Conclusão
O saldo positivo no banco de horas é uma dívida da empresa com o trabalhador — e essa dívida não desaparece com a demissão. Todo saldo registrado e não compensado deve ser pago na rescisão, com o adicional de horas extras correspondente e os reflexos nas demais verbas quando as horas foram habituais.
Se a empresa não incluiu o saldo de horas no acerto ou calculou o valor de forma incorreta, é possível cobrar a diferença na Justiça do Trabalho.
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